domingo, 10 de outubro de 2010

Nossa Truculência

Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência. 
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.


Minha falta de coragem de matar uma galinha
e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também. 



Clarice Lispector

7 comentários:

Malu disse...

Adoro esse texto , Dario.

Forte , intenso !!!
Truculência e sangue ...


Bjo grande e que seu Domingo se
faça feliz. :)

Encantadora de Abelhas disse...

Ao sangue relaciona-se união, forças, pactos... Há muito sentido nessa expressão... É morte, é vida, é ligação!
Pobre da galinha que não nasceu grama, que tem mais sentido em nascer pra saciar a fome que pra perceber a vida, fome de vida!
Triste é o fim que inicia e morre na barriga...
Nossa cultura é canibal, por isso o somos sem culpa e com culpa, mas somos...
É muito complexo e há muita hipocrisia nesse contexto!
Adorei o tema, desculpa por me passar nas linhas, sem querer me espalhei por aqui... rsrs
Bom Domingo, querido amigo
Bj

Silene Neves disse...

Tudo se contradiz... o ser humano é uma contradição! Bela... dinâminca e mutável... mais ainda contraditória...

Deixo beijo...
Carinho e sangue...
Sil
Sempre aqui

Priscilla Marfori... disse...

Dificil aceitar quem somos!
Lindo texto, bela escolha.
Grande abraço.

Olívia Comparato disse...

Clarice e os seus encantos, seu texto denso que fica em nós.

Sil.. disse...

Jesussssssssssss amado, Clarice me deixa sem AR!

AMOOOOOOOOOO, AMOOOOOOOOOOO!

Beijo meu querido!

Glaukitos disse...

Pior que é verdade...

Belo texto da Clarice!